Rio Open

Menino do Rio…Open

Menino do Rio…Open

Aos 19 anos e após sua melhor temporada na carreira, João Fonseca volta ao maior torneio da américa do Sul

Por Gustavo Loio


Em 2014, na primeira edição do Rio Open, João Fonseca, então aos sete anos, era apenas uma das crianças que se divertiram nas clínicas no Jockey Club. E, 12 anos e muitas conquistas depois, o jovem carioca retorna, em 2026, como a principal esperança do país, não só para essa edição, mas para as próximas, certamente.

Antes mesmo de se profissionalizar, João mostrou que era um juvenil muito acima da média. O inédito título da Copa Davis da categoria, em 2022, e do US Open, do ano seguinte, além do topo do ranking, também como juvenil, foram o ápice dessa fase.

Rio Open de 2024 foi um divisor de águas

João Fonseca e Carlos Alcaraz — Rio Open 2023

No dia 1º de janeiro de 2024, o brasileiro era apenas o 730º do mundo. Pouco mais de um mês depois, João Fonseca jogou o Rio Open, graças ao segundo convite consecutivo, dessa vez como o 655º do ranking. E aquela semana foi um divisor de águas na carreira do carioca. Afinal, foi no maior torneio da América do Sul que ele venceu as duas primeiras partidas de ATP na carreira, contra o francês Arthur Fils (36º do ranking) e o chileno Cristian Garin (88º e ex-campeão). Por ter chegado às quartas de final, aos 17 anos, o anfitrião saltou para a 343ª colocação.

João Fonseca — Rio Open 2026

Pouco mais de 10 meses depois, João Fonseca terminaria 2024 na 145ª posição, fechando o ano com o título invicto, em cinco partidas, do Next Gen Finals, em Jidá, na Arábia Saudita. Trata-se do torneio que reúne os oito melhores sub-20 da temporada. Apenas o espanhol Carlos Alcaraz e o italiano Jannik Sinner haviam vencido essa competição com a mesma idade do brasileiro: 18 anos.

Maior vitória da carreira

João Fonseca — vitória sobre Rublev

Logo em janeiro de 2025, em sua primeira temporada completa, João Fonseca conquistou a maior vitória da carreira: 3 sets a 0 sobre o russo Andrey Rublev, com parciais de 7/6, 6/3 e 7/6, na estreia do Aberto da Austrália. Aos 18 anos, o brasileiro foi o mais jovem da história a derrotar um top 10 na história do ranking (desde 1973).

Um mês depois João Fonseca se tornou o mais jovem brasileiro a vencer um ATP. A façanha foi celebrada no saibro do ATP 250 de Buenos Aires, derrotando nada menos que quatro anfitriões. Nas quartas de final, o campeão precisou salvar dois match-points contra o argentino Mariano Navone (47º), em sua vitória mais dramática no ano. Na grande final, outro triunfo contra um tenista da casa, dessa vez diante de Francisco Cerúndolo (28º), derrotado por 6/4 e 7/6.

A temporada de 2025 também foi marcada pela estreia de João Fonseca nos Grand Slams. Além do torneio em Melbourne, onde alcançou a segunda rodada, o brasileiro chegou à terceira fase em Roland Garros e em Wimbledon. Nesse último, quebrando uma escrita de 15 anos sem brasileiros na terceira rodada em Londres. Já no US Open, o número 1 do país chegou à segunda fase. Nesse nível de torneio, uma das façanhas do jovem carioca foi ter vencido todas as quatro estreias sem perder sets.

No dia 26 de outubro, João conquistou a cereja do bolo de 2025, ao vencer o ATP 500 da Basileia, na Suíça. A vitória na final (por 6/3 e 6/4) foi sobre o espanhol Alejandro Davidovich-Fokina (18º). Trata-se da maior conquista do tênis brasileiro desde agosto de 2001, quando Gustavo Kuerten foi campeão do Masters 1000 de Cincinnati. Aos 19 anos, o carioca também se tornou o mais jovem campeão no torneio suíço desde 1989.

Tal como nas quatro estreias de Grand Slams, João Fonseca passou sem perder sets nas suas duas primeiras finais de ATP. Perguntado sobre qual dessas façanhas mais lhe orgulhava, o número 1 do Brasil respondeu:

– Difícil essa (pergunta). Mas uma coisa que a gente fala bastante (com o técnico) é que final é final, e temos que entregar tudo, é difícil chegar ali, estar naquele momento, difícil jogar. Mas enfrentar aquela pressão é gostoso e, quando realiza, é muito bom. Então, ganhar as finais em dois sets foi melhor.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Da mesma maneira que é bastante competitivo, o tenista carioca é dos mais carismáticos. Ao ponto de ser elogiado por alguns e ter bom relacionamento com seus principais rivais, como o argentino Navone.

Lembro-me que foi muito divertida (a partida no Rio Open, vencida pelo hermano, nas quartas de final de 2024), rodada noturna, arquibancada lotada. Neste ano ele deu o troco, em Buenos Aires, eu, de local, perdi, a quadra veio abaixo, era uma gritaria impressionante, o público brasileiro bastante animado, nunca vi nada parecido numa quadra. Guardo como uma memória muito bonita, parecia Copa Davis.

Número 1 do Brasil nas duplas, Fernando Romboli acredita que o hype protagonizado por João Fonseca beneficia o tênis brasileiro de uma maneira geral, e não apenas nas simples masculina.

– Ele é um menino de ouro, um cara super tranquilo, gentil, carismático. Além de tudo, o tênis que ele joga é de um valor inestimável para o Brasil, e a única coisa que a gente tem que fazer é surfar essa onda. Porque realmente ele trouxe uma visibilidade muito grande e justa, o hype que ele gera não é exagerado, ele realmente é diferenciado. É um moleque sensacional.

Primeiro técnico exalta leveza

Primeiro técnico do jovem tenista carioca, Juan Pablo Etchecoin, mesmo a distância, se orgulha das façanhas do ex-pupilo:

Tive o privilégio de ensiná-lo a jogar tênis e acompanhá-lo por quatro anos. É emocionante ver onde ele chegou. Desde pequeno João sempre foi diferente, jogava com leveza, era o cara mais brincalhão, com alegria, coragem, ele se divertia muito dentro da quadra. Mas, ao mesmo tempo, tinha uma mentalidade enorme de aprender e de competir. E essa mistura foi a base para ele estar como ele está. Sempre tive um sonho de formar um top 100, vê-lo entre os melhores do mundo, inspirando tanta gente, uma alegria enorme pra mim. Meu trabalho de formação já foi feito lá atrás. E agora, o trabalho está sendo feito pelo grande Gui Teixeira e toda a equipe que o acompanha. Espero que o João siga sonhando e jogando com a alegria e felicidade que sempre vi nos seus olhos.

Ao lado do número 1 do Brasil desde 2018, Gui Teixeira é tratado por João Fonseca como um segundo pai. E um dos muitos motivos de orgulho do técnico é ver como o melhor tenista do país é querido no circuito:

– O João tem relação, na verdade, muito boa com todo mundo, é um cara muito tranquilo, bem low profile mesmo. Ele facilita muito a aproximação dos outros. Apesar do nível que tem, zero arrogância, isso ajuda demais o convívio dentro do circuito.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Ser humano na frente do tenista

Mineiro de Belo Horizonte, Gui está há mais de 10 anos no Rio e revela uma das conversas que costuma ter com o pupilo:

– Uma coisa que a gente tenta preservar é que o ser humano tem que vir sempre antes do tenista. Os valores não dependem do jogo que você faz, como joga. Sempre falo muito com ele: a gente está nos preparando para estar aqui nos próximos 15 anos. Então, é melhor que a gente cultive bons ambientes, boas amizades, que a gente trate as pessoas como gostaríamos de ser tratados.

Fora de quadra, garante o treinador, o número 1 do Brasil, ao contrário da velocidade com que gosta de bater na bolinha, não gosta de fazer nada com pressa. Segundo Gui, João Fonseca gosta de saber quando as coisas começam e terminam. 

A relação de João com o Rio Open começou há 12 anos e, pelo andar da carruagem, tem tudo para ser de muitas alegrias. Quem sabe, o anfitrião não será o primeiro do país a vencer o torneio, nas simples?

Torcida e talento, com certeza, não faltarão para isso.