SACANDO NO VERMELHO

A PARTIDA QUE NINGUÉM VÊ

Como tenistas bancam o sonho de seguir no circuito

Por Alexandre Cossenza

Disputar o Rio Open significa jogar por uma quantia vultosa de prize money, a premiação em dinheiro distribuída pelo torneio. O campeão da chave de simples levará para casa US$ 461 mil, o equivalente a R$ 2,4 milhões, e mesmo quem perder na primeira rodada embolsará uma quantia interessante: US$ 19 mil ou R$ 100 mil. É justo dizer que todos sairão da Cidade Maravilhosa bem recompensados financeiramente.

No entanto, até alcançar um torneio de grande porte como o ATP 500 carioca, o tenista precisa trilhar um caminho longo, árduo e com muitos gastos. Às vezes, passando um bom tempo em torneios pequenos, jogando por prêmios mais modestos e com menos visibilidade, o que torna mais complicada a tarefa de atrair um ou mais patrocinadores que ajudem a bancar os custos com equipamento, treinos, viagens, hospedagem e uma alimentação correta. Trata-se de um combo nada barato para que seja possível competir em condições físicas e mentais ideais.

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Marcelo Demoliner

O desafio é ainda maior para tenistas sul-americanos, que vivem em países com menor poder aquisitivo e precisam planejar gastos em dólares e euros. O gaúcho Marcelo Demoliner, por exemplo, revelou em suas redes sociais que gastou o equivalente a R$ 376 mil durante toda a temporada 2025. Essa quantia inclui gastos com encordoamento, hospedagem, transporte, alimentação, passagens aéreas e o investimento em sua equipe de redes sociais. Além disso, desembolsou R$ 168 mil em impostos, o que dá um total de mais de meio milhão de reais ao longo de 12 meses (R$ 544 mil ao todo).

Demo, atualmente no top 100 do ranking de duplas, conseguiu terminar 2025 com lucro, com um prize money de aproximadamente R$ 610 mil. Ao longo do ano, ele foi campeão de cinco torneios da série Challenger e disputou três torneios do Grand Slam. Entretanto, quem ainda está fora do top 100 e disputa torneios menores, como os ITFs e Challengers pequenos, tem gastos semelhantes, mas recebe muito menos em premiação.

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É aí que entra o espírito de empreendedorismo dos atletas, que muitas vezes precisam adotar atividades extras, inclusive em torneios que não contam pontos para o ranking, para somar dinheiro e seguir em busca de seus sonhos no circuito mundial.

Uma opção bastante comum é disputar torneios Interclubes na Alemanha, que tem um circuito forte e remunera bem os profissionais que competem lá. No Brasil, há os chamados “torneios de grana”, que são eventos fora do circuito profissional, mas são uma oportunidade de fazer uma boa renda extra.

“Eu jogo muito torneio de grana. Aqui no Brasil e na Europa também. Não é o ideal porque se você está jogando profissional, você tem que concentrar ali. Muitas vezes eu perco e na semana seguinte tem um torneio de grana, então acabo jogando nesse fim de semana. A gente vai sobrevivendo disso. Jogando Interclubes e bastante torneio de grana para fazer um caixa”, contou Daniel Dutra da Silva, que segue firme no circuito aos 37 anos.

Danielzinho também relata que faz de tudo para gastar menos quando está fora de casa. “Quando vou para a Europa e viajo sozinho, alugo só um quarto de uma casa de pessoa no Airbnb, acaba saindo muito mais barato do que hotel de torneio. Fiquei uma vez num albergue em um Future em Viña del Mar. A gente comprava aquelas lasanhas prontas e pedia emprestado o microondas do cara para esquentar à noite. A gente jantava isso a semana inteira para economizar”.

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Rogério Dutra Silva, o Rogerinho, também já apelou para comida congelada. Antes de se firmar no top 100, o paulista, que começou no esporte como pegador de bolas, fez de tudo em seus primeiros dias como profissional.

Rogério Dutra Silva

“Cheguei a dar aula em clube porque se eu desse aula para crianças ganhava 400 euros por semana. Fiquei de sparring também de um tenista juvenil. O pai dele falou que se eu treinasse o filho, me pagava pela semana e dava comida. Abri mão de jogar torneios por essa grana. Muitas vezes, eu parava de treinar porque não tinha dinheiro para comprar corda de raquete. Duas, três semanas nisso para ter o que comer e viajar”, destacou em uma entrevista ao GE.

Durante uma viagem a Portugal, apelou para lasanhas durante três meses. “Tinha uma promoção que a lasanha era 1 euro. Aquelas lasanhas embaladas, congeladas. Comi isso por três meses. Era meu almoço e janta”, lembrou, com bom humor.

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Recentemente, o duplista Fernando Romboli, que terminou 2025 como número 1 do Brasil na modalidade, também falou sobre isso. O carioca radicado no litoral paulista abriu uma agência para vender passagens aéreas e obter uma renda extra que lhe permitisse continuar competindo no circuito.

“Foi isso que me deu a tranquilidade nesses últimos quatro anos porque depois que eu comecei a ter uma entrada de grana, eu falei ‘posso continuar jogando, viajando, tentando enquanto eu tô feliz ali’. Obviamente, eu tive que abrir mão de treino. Treinava menos às vezes porque estava no computador. Não dava. Não dá pra fazer o físico hoje? Faz amanhã. Então claro que eu tive que abrir mão de certas coisas, mas eu estava disposto porque eu falei ‘Se isso aqui me dá a liberdade de poder continuar jogando, então tenho que levar isso aqui como parte de mim, não como uma coisa que está me atrapalhando’, entendeu?”.

Valeu a pena. Em 2025, com 36 anos, Romboli teve a melhor temporada da carreira. Primeiro, alcançou as semifinais do Masters 1000 de Indian Wells. Depois, foi campeão do ATP 250 de Houston. Fez oitavas em Roland Garros e no US Open. No fim, embolsou US$ 354 mil em prize money, o equivalente a R$ 1,9 milhão. Uma merecida recompensa a quem tanto trabalhou.

Hoje, Romboli está no Rio Open e tentará ajudar seu parceiro, o mineiro Marcelo Melo, a defender o título do ATP 500 carioca. Se conseguir, embolsará mais US$ 151 mil, ou R$ 800 mil. Um prêmio e tanto.